FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DE VÁRZEA-ALEGRE

FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DE VÁRZEA-ALEGRE

Não temos dúvidas da importância e necessidade de se respeitar e perpetuar a cultura, manter viva a história de um povo, o patrimônio arquitetônico de uma cidade, aspectos que se confundem com a própria vida de cada um de seus habitantes. É com indescritível prazer que me refiro à minha terra natal, Várzea Alegre, trazendo ao leitor parte do trabalho monográfico ‘”Notas para a História de Várzea Alegre”, feito com o objetivo de cumprirmos pré-requisito para nosso ingresso na Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará - ALMECE, que teve a saudosa conterrânea, Maria Hilma Correia Montenegro, ocupando a cadeira N0 63, até 12.05.2009, quando faleceu, aos 90 anos. 

Várzea Alegre tem sua origem em princípio do século XVIII, quando os irmãos portugueses, Capitão Agostinho Duarte Pinheiro e Alferes Bernardo Duarte Pinheiro, chegaram à região centro-sul do Ceará, às margens do Riacho do Machado, na época, Riacho do Coroatá, para solicitar datas de sesmarias (ALVES; COSTA, 1995, p.17), as quais lhes foram concedidas. Percorrendo as propriedades, os portugueses chegaram a uma planície verde, com lagoa e grande quantidade de pássaros. À contemplação e admiração da paisagem, um do grupo exclamou: "QUE VÁRZEA ALEGRE!" Daí o nome da cidade que permanece até hoje.

Várzea Alegre pertenceu ao município de Lavras da Mangabeira, extenso território, que compreendia mais outros cinco municípios: Aurora, Umari, Cedro, Baixio e Ipaumirim (Anuário do Ceará, 1976, p.25). Sendo o primeiro município desmembrado, teve sua formação política concretizada através do Decreto Nº 448, de 20 de dezembro de 1839. Várias leis suprimiram e restabeleceram a autonomia do lugarejo, até que, a Lei Provincial Nº 1.329, de 10 de outubro de 1870 o cria oficialmente, sancionada pelo então Presidente da Província, Inácio Marcondes Homem de Melo, instalado a 02 de março de 1872. Na conhecida Era Vargas, governo de Getúlio Vargas, o município foi extinto pelo Decreto Nº 193, de 20 de maio de 1931, com seu território anexado ao município de Cedro, mas, em seguida, restaurado pelo Decreto Nº 1.156, de 04 de dezembro de 1933, e revigorado em 1936, com a inclusão de mais dois distritos (GIRÃO.; FILHO, 1965, p. 513), atualmente somando cinco: Calabaça, Canindezinho, Ibicatu, Naraniú e Riacho Verde.

Distante 467 km de Fortaleza, com área da Unidade Territorial de 835,71 km2, o município  tem uma população de 39.379 habitantes (IBGE, 2008), 21.997 na zona urbana, e uma densidade demográfica de 45,16 habitantes por km2. Banhado pela Bacia do Salgado sobressaem as serras: Negra, Cavalos, Charneca e Crioulos, tendo em todo o leito da bacia hidrográfica, terras de várzeas. Os principais cursos d’água existentes são: Riacho do Machado, São Miguel e Riacho do Meio, com os seus afluentes Mocotó, Caiana, Feijão e Umari dos Carlos, banhando todo o território, servindo de limites naturais entre os Municípios de Cedro e Lavras da Mangabeira. Constituem-se recursos hídricos, que complementam a rede hidrográfica do município, os açudes: Caldeirão, Caraíbas, Lagoa Seca, Mameluco, Mocotó, Monte Alegre, Muquém, Olho D’Água, Riacho Verde, Tanga, Ubaldinho, Vacaria;   as lagoas: São Raimundo Nonato, Iputi, Nunes, Lagoa de Dentro e as barragens: Cachoeira Dantas e Fortuna. Quantas histórias cada um de nós pode contar de cada lugar desses!  Quantas lembranças!

  
                   Colheita artesanal do arroz

Da religiosidade do município, que tem São Raimundo Nonato como padroeiro, sabe-se que, em 19 de outubro de 1863, Major Joaquim Alves Bezerra, filho de “Papai Raimundo”, o patriarca, doa terreno para construção da igreja matriz, oficialmente criada pela Lei Nº 1.706, de 30 de novembro de 1863, tendo como primeiro vigário o Padre Benedito de Sousa Rego, natural de Arneiroz, nomeado por provisão de 30 de dezembro de 1863, empossado em 20 de março de 1864 (SILVEIRA, 2004, p.244).

Interessante registrar que, para assistir às cerimônias religiosas, cada família providencia a sua cadeira, com identificação (nome do proprietário), para ficar na matriz. Havia cadeiras entalhadas, com almofadas, entretanto, os bancos da maioria eram peças simples. Paralelamente a atos religiosos, surgiram irmandades organizadas, lideradas por pessoas responsáveis pelas festas dos santos protetores. Os membros das irmandades usavam no pescoço medalhas presas por fitas coloridas, para identificação. Por exemplo: a irmandade do Coração de Jesus, que tinha como coordenadoras Santa Correia e Dedé Pimpim, identificava-se com fita vermelha. A de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, liderada por D. Adelina Siebra, com fita verde. Mães Cristãs e Filhas de Maria, dirigidas por Louzinha Oliveira e Raimunda Teixeíra, com fita azul, cor também usada por “Seu” Dirceu Pimpim, que coordenou os Marianos.

Celebravam-se missas com ajuda do sacristão Sr. Marabu e cânticos do Sr Milindó, responsabilidade que, passou em seguida, para Amadeu Siebra e filhos, João Batista e Chico de Amadeu. Rezadas em latim ou português, as missas (celebradas às 5h00min da manhã) eram acompanhadas pelo órgão da igreja. Chico de Amadeu, organista, fez-se sanfoneiro afamado na cidade, deixando muita tristeza e saudades ao falecer.

O coral da igreja enriquecera por vozes femininas, em destaque, Sinhá Diniz, Zulmira Siébra,  Santa Correia, Cira, Raimunda Teixeira, Altina, Bilica, Raimunda de Mestre Antônio, Romana esta última, aos 100 anos, continua lúcida, espirituosa e ainda com muita devoção a Raimundo Nonato, padroeiro louvado em festa que acontece nos últimos dez dias do mês de agosto, quando centenas de devotos participam de missas pela madrugada, caminhadas para os bairros, salvas e novenas, também momento de reencontro entre famíliares que já não residem mais na cidade.

    

Pe  José Otávio de Andrade


Atualmente, Várzea Alegre conta com a Igreja Matriz de São Raimundo Nonato e várias  capelas: Nossa Senhora de Fátima (Riachinho), São Francisco de Assis (Canindezinho), São João Batista (Riacho Verde), São Caetano (Naraniu) e Cristo Rei  (Calabaça). Quanto aos templos evangélicos: Igreja Adventista do Sétimo Dia, Igreja Evangélica Assembleia de Deus, Igreja Batista, Congregação Cristã do Brasil, Igreja Presbiteriana I e II, Igreja Universal do Reino de Deus, Testemunha de Jeová e Igreja Betesda.

A expressão artístico cultural da cidade destaca-se pelos contrastes, fundamentados na alegria e espontaneidade de seu povo. O grande precursor destes, o motorista Joaquim Felipe de Souza, conhecido por Zé Felipe, um contraste no próprio nome. Conta-se que, nas suas viagens ao sul do país, descrevia sua terra natal de forma humorística, deixando expectadores curiosos encantados com as excentricidades do lugar. Contrastes criados por ele, embasados em fatos reais: O Padre era casado (O Padre Otávio, antes de se ordenar, casou-se duas vezes, tendo sete filhos. Com a viuvez, voltou para o seminário, onde estudara, e ordenou-se); O Calango é o carcereiro (o seu nome era Manuel, apelido Calango, trabalhava na cadeia.); O Bode é o marchante (Bodeiro era o seu apelido e abatia os animais no matadouro); O Peru é o delegado (José Raimundo da Silva, Zé Peru, apelido da família, hoje nome de rua.); A Juíza é uma mulher (Dra. Aury Moura Costa, contrariando as regras da época, era juíza, casada, com filhos e muito preparada, alcançando mais tarde, o cargo de Desembargadora); Santo Ambrósio é São Raimundo (a imagem de Santo Ambrósio foi venerada como São Raimundo Nonato, durante muitos anos, até que o Pe. Otávio providenciou a correção); O Prefeito só faz aniversário de quatro em quatro anos (Vicente Honório nasceu no dia 29 de fevereiro); O Cruzeiro é isolado (construído em homenagem à 1a Missão Popular de Várzea Alegre, ficava no alto do morro); Houve três dias de guerra e não morreu um só cristão (refere-se à “guerra” de 1926, provocada pela disputa do poder executivo municipal) (MORENO, 2004, p. 153).

 Os próprios filhos da terra também tiveram a iniciativa de propagar os seus contrastes, falando daqueles que realmente existiam e criando outros a cada dia que passa. E são muitos, cantados, recitados em versos e prosas, cordéis, crônicas etc., a exemplo de José Clementino do Nascimento Sobrinho que inspirado na figura de Zé Felipe e, nos comentários do povo da cidade, tornou-se renomado no cenário artístico, com a música “Os contrastes de Várzea Alegre”, gravada pelo rei do baião, Luiz Gonzaga.

A imprensa local inicia com Raimundo Walquírio Correia, que manteve a amplificadora, tão  útil no município, a divulgar recados, mensagens de carinho, amor e paixão, até a chegada da Rádio Cultura, que continua a levar estas mensagens aos sítios e distritos mais distantes. Com o Jornalista Joaquim Ferreira, que se fez comentarista da BBC de Londres (British Broadcasting Corporation), a mais importante e potente emissora de rádio do mundo,  sentimos a alegria de ver a nossa terra brilhar.

Nas artes visuais e cênicas, tivemos o Cine Odeon, captaneado por Edmilson Martins, também palco de concursos para escolha de talentos artísticos, nas “matinees”. Pe Agemiro marcou presença quando levava o cinema para Várzea Alegre, para assistirmos os filmes de cunho religioso estampados na parede externa da casa paroquial. João Alves de Morais (Joãozinho de Pedro Piau) levou à Várzea Alegre, na década de 80, as máquinas filmadoras, deixando registrado grande acervo da cultura local. Instalava o telão em praça pública, permitindo ao povo assistir o resultado das gravações, que era sua própria história. 

Várzea Alegre é a terra dos 52 escritores com trabalhos literários publicados, sejam na forma de poemas, crônicas, cordel, romance, antologia, livro técnico ou mesmo participação em coletâneas, dentre eles: Acelino Leandro da Costa, Adelgides de Figueredo Correia (in memoriam), André Freire Furtado, Antonio Alves de Morais, Antônio Batista Vieira (grande Padre Vieira), Antonio Dantas, Cesário Ney de Almeida, Edival Borges, Edjacir Ferreira Silva, Edna Mirtes Bitu Lemos, Flávio Costa Cavalcante, Francisco Bezerra de Aquino, Francisco Ney Lemos, Gênes Alencar, George Cândido Rolim, Gilberto Correia de Oliveira (Gilberto de Zaqueu), Israel Batista de Sousa, Joaquim José de Oliveira, José Aldenísio Correia, os médicos José Bitu Moreno, José Ferreira (in memoriam) e José Iran Costa Júnior, José Leandro Bezerra da Costa, (in memoriam), José Ossian Lima, José Sávio Teixeira Pinheiro (membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel), José Valdir Pereira (Presidente da Academia de Letras de Rondônia), Luiz Otacílio Correia (in memoriam), Luiz Tarcisio Coelho Bezerra, Manoel Gonçalves de Lemos, in memoriam, (nascido em São José, Lavras da Mangabeira, viveu meio século em Várzea Alegre, tendo lá recebido o título de cidadão varzealegrense), Maria Eunice Diniz Moreno, Maria Hilma Correia Montenegro, Maria Irandé Bitu Costa Morais Antunes (Fátima Costa), Maria Linda Lemos Bezerra, Maria Bezerra Rocha, Miguel Alves de Lima, Marlene Bastos Salviano Guerra, Paulo Sergio Viana Bezerra, Pedro Aldy de Sousa, Pedro Alves de Morais (Pedro Piau), Pedro Gonçalves de Morais (Pedro Tenente, in memoriam), Pedro G. Sátiro, Polyanna Bitu de Aquino, Raimundo Araújo, Raimundo Lucas Bidinho (in memoriam), Raimundo Nonato Bezerra (Mundim do Vale), Raimundo Otoni Filho (in memoriam), Ronaldo Correia de Andrade, Sinésio Lustosa Cabral Sobrinho e Valdemar Barrinha da Silva Filho. Sem desmerecer os demais, um deles, o Pe Vieira projetou nosso torrão natal mundo afora.
 
Os artistas populares responsáveis pelo lazer e alegria do povo merecem destaque, a exemplo de: Damião Carlos (Damião dos Bonecos\in memoriam); Ildefonso Vieira Lima (artista plástico); Músicos: Jairo Diniz, Francisco Chagas do Nascimento (Mestre Chagas); Sanfoneiros: Pedro Bezerra de Souza (Pedro Souza) e Francisco Teixeira Siebra (Chico de Amadeu), ambos não mais presentes entre nós. Compositores: José Clementino do Nascimento Sobrinho, Luis Sérgio Bezerra de Morais (Sérgio Piau); Violeiro José Gonçalves de Sousa, Gabriel Bezerra  de Morais (Bié),  Expedito do Pandeiro, Zé Lucas e seu bandolim. Novos sanfoneiros e violeiros surgem, fazendo a alegria de muitas pessoas.
                                 
A expressão política tem na Câmara Municipal, que ganhou autonomia em 1984, nomes tais como: José de Holanda Filho, Antonio Miguel da Silva, Raimundo Borges, Nicolau Sátiro, Joaquim Alves Bezerra, Francisco Batista Lima (Norberto Rolim), José Batista de Freitas, José Odimar Correia, Francisco Teixeira Siebra, (MORENO, 2004, p.123), Antônio Francisco da Silva, Elihua Nogueira Eufrázio, Gustavo Correia de Oliveira, Antônio Fernandes de Lima, Antônio Fiuza de Alencar, José Caetano da Silva, Antônio Luis Sobrinho, Francisco Bezerra Quincas, José Wilson Sampaio, José Bitu de Oliveira (MUNICÍPIOS DO CEARA, 1996, p.179). Para a gestão 2006-2010 foram eleitos: Luiz Luciano e Silva (Presidente), Eliana Maria Araújo Oliveira, Luiza Denise Salviano Lima Bezerra, Antônio Sebastião Neto, Francisco Clementino De Almeida, Elonmarcos Cândido Correia, Valdeci Alves Correia, Carlos Renir Correia Leandro e José Batista Rolim.

Pelo executivo municipal já passaram 24 prefeitos, alguns eles reeleitos1 (*): Tomaz Duarte de Aquino, José Raimundo Nonato de Morais, Cel. Antônio Correia Lima*, Cel. José Correia Lima, Antônio Primo Correia, Antônio Leopoldo Serra, Américo Barreira, Josué Alves Diniz, Vicente Honório, Joaquim Afonso Diniz, José Vitorino Bezerra, José Alves da Costa, Francisco Correia Lima (Hamilton)*, Adelgides de Figueiredo Correia, Luiz Otacílio Correia*, Dário Batista Moreno, Cel. Josué Alves Diniz, Pedro Sátiro*, Antônio Afonso Diniz, Lourival Frutuoso de Oliveira, José Iran Costa, João Alves de Lima, João Eufrásio Nogueira*, sendo José Helder Máximo de Carvalho* o atual prefeito. 
Várzea Alegre teve representantes no legislativo estadual tais como: Joaquim de Figueiredo Correia (e também deputado federal), José Figueiredo Correia, Francisco José Figueiredo Correia, Antonio Afonso Diniz, Manoel Salviano Sobrinho, Nilo Sérgio Viana Bezerra, Luiz Otacílio Correia e o deputado federal, Padre Antonio Vieira, todos com excelentes serviços prestados à sua terra natal.

Essa é “minha terra, minha gente” para usar o título do livro do conterrâneo, médico escritor José Ferreira. Tem muito mais, que contarei numa próxima oportunidade.

Igreja de São Raimundo Nonato – Várzea Alegre-CE
 


 
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1(*) Prefeitos reeleitos

 

BIBLIOGRAFIA

ANUÁRIO DO CEARÁ.  Fortaleza: Editor Dorian Sampaio, 1976. 


COSTA, Acelino Leandro.; MORAIS, Pedro Alves de.  Varzea-Alegre: Sete Gerações desde Papai Raimundo. Fortaleza: Gráfica Universitária, 1995.

GIRÃO, Raimundo.; FILHO, Antonio Martins. O Ceará. 3. ed. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1965.

MORENO, Maria Eunice Diniz. Balbina Menezes Diniz. 80 Anos de História Bem Vividas. Recife: Editora Liber, 2004.

MORAIS, Antonio Alves de. Eleição de 1962. Site blog do Sanharol. Disponível em 30 de janeiro de 2009. Visitado em 12 de setembro de 2009

MUNICÍPIOS DO CEARA. Fortaleza: Multigraf Editora Ltda, 1996.

SILVEIRA, Aureliano Diamantino. Ungidos do Senhor. 3. ed. Fortaleza: Editora Prêmios,  v. 1, 2004.

DIVISÃO TERRITORIAL DO BRASIL. Divisão Territorial do Brasil e Limites Territoriais. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (1 de julho de 2008). Disponível em: http://www.varzeaalegre.ce.gov.br/geografia.htm. Acesso em 01 jul. 2009

ESTIMATIVAS DA POPULAÇÃO PARA 1º DE JULHO DE 2008. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (29 de agosto de 2008). Disponível em: http://www.varzeaalegre.ce.gov.br/demografia.htm. Acesso em 01 jul. 2009


 

 

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