O líder - João Gonçalves de Lemos

          ...o que conheci, com base tradicional, ancestral, honorabilidade de caráter, consentido pela comunidade, a autoridade que exercia tem o conceito e a realidade confundíveis e conexos com os de poder, força, arbítrio, influência e prestígio, para os quais Max Weber propõe defini-los individualmente e os classifica como dominação que se resume na capacidade de “mandar e ser obedecido” e, antes, a obediência Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus, definira sucintamente “como fazer nossa a vontade do superior...”

          Trago a estas modestas páginas resumo da história de um líder que viveu em meio ao coronelismo sem ser autoritário como era a atitude do tipo social da época no País, talvez mais expressivo no Nordeste, em cuja região a lei era a vontade do coronel... Por extensão, familiares dos clãs patriarcais “mandavam e desmandavam”..., enquanto uma grande maioria da população vivia a míngua de tudo, principalmente era escassa a produção de alimentos cujas terras, pelo menos no Cariri, eram ocupadas por monoculturas da cana de açúcar e do algodão.

          Era pesada oligarquia, dona das terras, coronéis controlando tudo e a todos, principalmente o poder pelo “voto de cabresto” nos chamados “currais eleitorais” que, desse modo, o comando na política lhes assegurava a patente de “Coronel da Guarda Nacional. O coronelismo perdurou por muito tempo e, na verdade, ainda se manifesta em algumas práticas políticas que expressam esse jeito perverso de administrar, isto é, o sistema sobrevive como “fogo de monturo” e remanesce em alguns políticos. Essa é uma história à parte que será contada noutra oportunidade, neste ou em outro espaço.

          Chefes políticos se atribuíam patentes de coronéis alimentadas por “cabos eleitorais”, comendas e patentes que a população ordeira acolhe, talvez cooptada para apoiar, sem avaliar o poder justificado pela riqueza, pela coragem ou por qualquer outro atributo.

          Coronel Thomaz de Lemos, melhor chamá-lo de “capitão de indústria”, pioneiro da incipiente industrialização de Mangabeira, antigo São José, (final do século 19). Com os irmãos Pedro de Oliveira Lemos e Joaquim Gonçalves de Lemos Filho adquiriram fazendas de criar e construíram ou mantiveram os Engenhos Lajes, Açude Novo e Cantinho, instalaram bolandeiras de beneficiamento de algodão, consolidando, assim, segmento próspero do chamado “pais dos amargosos”. E a patente veio por tradição, o avô e o bisavô, Major e Coronel, pertencera à guarda nacional, criação do Império do Brasil (1831).  

          Thomaz Gonçalves de Lemos nasceu aos 21 de agosto de 1869, na então Fazenda Cedro, era filho de Joaquim Gonçalves de Lemos e de Maria Madalena do Rosário Mangueira (Dondonzinha); avós paternos Patriarca José Alexandre de Lemos e Maria Gonçalves de Oliveira (ele oriundo do Quixadá,1801); e maternos: Pedro Vieira Mangueira (Major da Guarda Nacional) e Viturina de Souza Lima.

          A família materna de meu pai detinha o poder do coronelismo, não acontecendo com a família paterna. Além do Major Pedro, avô, também do Coronel Francisco de Sales Lima, bisavô que exercia, em Lavras da Mangabeira, “as funções do cargo de juiz ordinário e de órfãos, 1827 e 1828, (Macedo, 1984, p. 59) e a liderança política como vereador em várias legislaturas, tendo presidido o legislativo local, entre 1837-1839 (Gonçalves, 2004, p. 67).      

          Em que Thomaz de Lemos era diferente, em relação a outros proprietários de terras? Permitia a produção de alimentos o que garantia subsistência às famílias em torno da Fazenda, ajudava aos que, pela dignidade do trabalho, contribuíam para a riqueza de todos, mantinha mestres para alfabetização da prole e de descendentes, dos filhos de moradores e até crianças das fazendas vizinhas.

          Thomaz de Lemos detinha autoridade sobre extensa família, “corpo sócio-familiar uno e indivisível, inclusive filhos de criação que os houve também”, disse-o o mano Manoel, médico doublé de escritor, em sua obra (Lemos, 1993, p. 33), sendo de relações sociais invejáveis no seu habitat que se distinguia pela dignidade e responsabilidade.

          O amor filial confunde-me com a admiração da ação positiva do líder no setor social – o da educação – que Thomaz de Lemos compreendera ser fundamental na vida das pessoas o ensino..., e trouxe mestres para dentro do Engenho Lajes, favorecendo até as fazendas vizinhas; assim, mestre Paulo Moreira de Mello fora a sua grande descoberta, o educador a quem tantas famílias devem a educação formal dos filhos.

          É destaque o espírito empreendedor de meu pai, quase nonagenário realiza obra de transposição de águas de bacias hidrográficas na fazenda, empreendimento que Dias da Silva (Ivonildo), bisneto, registra: Thomaz de Lemos, “vendo tanta água querendo extravasar, mandou abrir um canal rumo ao Açude Lajes, furando pontas de serra, abatendo morros e quebrando pedras, o primeiro e único canal nos arredores, cavado longamente nos pés de serra” (Dias da Silva, 2002, p. 95/96). O Canal Macacão-Lajes valoriza as terras, uma das propriedades mais bem servidas do preciso líquido e que antecede à prometida transposição do “Velho Chico”.                         

          Ao concluir estas linhas, lembro estatutos da época para tornar compreensível aos leitores que a instrução modesta de meu pai não lhe permitiu maiores avanços profissionais que, assim mesmo, era cioso de suas responsabilidades, com postura acatada por chefes políticos aparentemente adversários.

          E o episódio, a seguir, ilustra a capacidade de convivência de meu pai que, bem definida a amizade e relação política partidária entre as famílias Lemos e Augusto, inclusive laços matrimoniais, mantinha com outras famílias relações amistosas e de recíproco respeito. Anos trinta: o cenário político da época, pós-revolução getulista, era desfavorável à família Augusto que, assim, o Cel. Raimundo Augusto Lima foi duramente perseguido, tendo “os revolucionários... à procura dos que fossem contra o movimento..., na Fazenda São Domingos..., não o encontrando ali, destruíram todos os alambiques de sua destilaria..., vazados pela força das balas”. Ele estava seguro, acolhido na fazenda de um amigo, Raimundo Thomaz, o conhecido “Seu” Mundoca. (Leitão e Monteiro, 2007, p. 57). Era a fazenda dos Gonçalves e Mendonça Sales, familiares de minha mãe, no hoje Arrojado Lisboa.

          Pois bem. A Casa de Lajes, bonito Chalé, ostenta na parte mais alta do prédio, a letra “T”, inicial de Thomaz, prenome do dono que os revolucionários usam como alvo: - estamos proibidos de passar por ali, disse o líder do grupo... e, se aproximando diz: - ali é a Casa do Cel. Thomaz de Lemos que, por ordem do nosso Chefe, não devemos molestá-lo, nem a sua família mas deixo-lhe nossa marca... e atirou na letra, fato que assustou a família, sem causar danos.            

          Foi esse o líder que conheci, recebeu homenagem com nome de rua, na pequena São José, rua na qual o Colégio Paulo VII, como se fora um propósito, torna-se o reconhecimento do povo por sua ação em favor da educação. Isso mexe muito com corações, centro das emoções, mas seu mérito foi haver conduzido a família e atravessado o coronelismo exacerbado para chegar ileso. Por isso, Cel. Thomaz de Lemos, ícone que a família cultiva e agradece a generosidade do povo.    

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MACEDO, Joaryvar, São Vicente das Lavras –Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1984

GONÇALVES, Rejane Monteiro Augusto – Fortaleza: Tiprogresso, 2004

LEMOS, Manoel Gonçalves de – Folhas Esparsas, Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 11993 

DIAS DA SILVA, Francisco – Pedaços de vida e outras coisas em pedaços, Coleção Binóculo – Fortaleza: RBS Editora, 2002

LEITÃO, Juarez e MONTEIRO, Túlio – Sonhos e Vitórias, Fortaleza: Premius, 2007

 

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