VARZEA-ALEGRE CONTRASTES - Linda Lemos

O termo contraste, em estado de dicionário, significa reverso, revirado, etc. Mas no caso de Várzea Alegre, tudo está no lugar, nada fora do devido lugar..., sendo seus contrastes uma de suas características marcantes e que identificam a comunidade, não trazendo para a população nenhum incomodo ou quizila; na verdade, os contrastes significam um modo bem especial, o bom humor daquela gente de alegria espontânea.

A cidade de Várzea Alegre destaca-se por esses inúmeros contrastes que tiveram como grande precursor o motorista Joaquim Felipe de Souza, no próprio nome um contraste, pois era conhecido por Zé Felipe, um homem inteligente e bem humorado. Conta-se que em suas viagens ao Sul do País, descrevia seu torrão natal de forma humorística, exagerando e aguçando interesses nos curiosos que o ouviam e que mais ainda especulavam sobre as excentricidades do lugar.
         
Posteriormente, outros filhos da terra tiveram a iniciativa de propagar os contrastes varzalegrenses, de tal forma que o tema chegou a jornais e estações de rádio que se deliciaram com o fato. Até o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, cantou a composição do conterrâneo José Clementino, denominada “Os Contrastes de Várzea-Alegre”. E, assim, as pessoas continuam propagando o assunto, falando dos contrastes existentes, descobrindo outros a cada dia que passa e se deliciando em divulgá-los, como o fez Zé Felipe.
          
As atividades que fazem o Município progredir não são descuradas e, quem sabe, os contrastes podem até ser objeto da indústria sem chaminé, o rendoso turismo, sendo que, como explica Zé Ferreira (1985), é preciso não descurar de tantos e louváveis atributos destacados do nosso povo. O ilustre conterrâneo assim pensava, mas não deixou de admitir a existência das excentricidades de nossa terra: “Joaquim Ferreira, redator do jornal O Globo, não tinha dicção adequada para ler sequer suas próprias crônicas na amplificadora de Várzea-Alegre, mas se fez comentarista da BBC de Londres (British Broadoasting Corporation), a mais importante e potente rádio emissora do mundo, na época, ele próprio lendo suas crônicas para todo o Brasil.
         
Alguns dos nossos contrastes são como seguem: Uma pensão, talvez a única da Cidade, era de Joaquim Piau e lá não se encontrava peixe no cardápio; O sujeito mais feio era Lindoval; Um cidadão chamado Menininho tinha quase dois metros de altura; Um cego chamado Piau era da Boa Vista e terminou morrendo afogado na Lagoa Seca; Vicente Grande tinha apenas um metro de altura; O fotografo vazalegrense era chamado Jesus e só bebia sua “pinga” na bodega de Santos; Chico Segunda Feira era inimigo de Zé Domingo; A Cadeia da Cidade é situada na Praça da Liberdade; Pacífico Cordeiro da Paz era o sujeito mais desordeiro da terra; Pureza era a prostituta mais afamada do bordel; Só em Várzea Alegre poderia existir um Chico Francisco e um Zé Pequeno que era o homem mais alto do Município; Zé Branco é bem pretinho; Dona Felicidade era uma pedinte; o Sr. Joaquim Vermelho, na festa do Padroeiro São Raimundo Nonato, trabalhava para o Partido Azul; O Presidente da Associação das Lavadeiras de Roupas é um homem chamado Pelé; Um anjo morreu na casa de Jesus; Um homem acidentou-se no Pronto Socorro e foi atendido nesse Hospital; Padre Antônio Vieira foi sepultado no dia em que não podia celebrar missa, Sábado de Aleluia; A Festa de Sábado de Aleluia foi comemorada no Domingo de Páscoa; a Praça da Matriz não tem bancos.
         
Enalteceu Várzea Alegre, divulgando seus contrastes, o poeta Raimundo Lucas Bidinho (1993); também o fez o médico Manoel Gonçalves de Lemos (1993), Miguel Alves de Lima (1995), Israel Batista (2001), Francisco Franço Gonçalves de Lemos (2001), entre outros. Um dos últimos foi divulgado por minha prima e querida amiga Paula Francinette Costa, recentemente falecida (fevereiro de 2009); possuidora de humor e alegria contagiantes,  visitou-me num pós-operatório, trazendo a notícia de que Várzea-Alegre estava mobilizada procurando a máquina fotográfica de “Seu” Jesus como também sua foto, para fazer parte do acervo cultural da cidade. Apesar de ser o fotógrafo oficial da cidade durante muitos anos,  deixando para os filhos sua profissão como a herança, Jesus faleceu e não deixou uma foto sequer.
 
 O mais recente contraste foi contado em cordel pelo médico José Sávio Pinheiro (2009) “Novo contraste nasceu; Com decisão descabida; A guerra não combatida; O major morto perdeu”. Ele se refere a Rua Major Joaquim Alves que foi substituída por Rua Luiz Otacílio Correia. No cordel, Sávio se refere ao idealizado e imaginário “Encontro de São Raimundo Nonato com Getúlio Vargas na Festa de Agosto”, trazendo em suas estrofes dentre outros, um tema polêmico, atual e interessante: a controvérsia sobre a mudança do nome de ruas, praças e avenidas públicas, discutida através do do Projeto de Lei 608/03 que tramita pela Comissão de Educação e Cultura do Congresso Nacional, proibindo a alteração dos nomes de ruas, avenidas e monumentos públicos em uso há pelo menos 15 anos. A mudança, pelo texto, só poderia ser feita por vontade popular plebiscitária.

Algumas questões de ordem prática devem ser observadas quando se pensar em alterar nomes de ruas, avenidas e logradouros públicos em geral. Uma delas é a despesa com material, por exemplo: blocos de notas fiscais, placas dos estabelecimentos comerciais, carimbos, papéis timbrados, envelopes, sem contar o trabalho para propagar o novo endereço, seja ela através de correspondências a ser enviada via correios, seja ela eletronicamente encaminhada. Some-se a isto o quanto se perde em termo de memória, afinal, uma cidade sem memória é uma cidade sem história; o que de certa forma abre precedentes para futuras mudanças, criando quem sabe mal estar entre conterrâneos, principalmente naqueles cujo nome não ostenta mais na rua que lhe homenageia e, no lugar, outro homenageado, ainda que mereça como é o caso.

 

A autora deste artigo Maria Linda Lemos Bezerra nasceu em Várzea Alegre (CE), é formada em Ciências Contábeis pela UFC, em psicologia pela Florida Atlantic University, em Boca Raton FL, USA e pós-graduada na Auburn University, Montgomery, AL, USA (contato: lindapsy03@yahoo.com.br).

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